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A vida não está atrasada

Enquanto eles crescem, existe algo que não quero deixar para depois: estar presente na vida que já está acontecendo

29 de Setembro de 2026 0 comentários

Tenho três filhos, os dois Joões e a Maria. Como qualquer pai, tenho uma lista enorme de coisas que gostaria de proporcionar a eles. Quero vê-los crescer, estudar, descobrir o mundo, fazer suas escolhas e conquistar seus espaços. Quero estar presente. Mas tenho me perguntado em que momento a vontade de oferecer uma vida melhor começa a se transformar em uma corrida?

Foto: Arquivo Pessoal

Tenho a impressão de que estamos sempre atrasados. Acordamos pensando no que precisa ser resolvido, trabalhamos com a cabeça na próxima tarefa e terminamos um projeto já pensando no seguinte. Conseguimos alguma coisa e, antes mesmo de aproveitar, olhamos para aquilo que ainda falta. A vida parece ter virado uma sequência interminável de próximos passos. Como se sempre houvesse um lugar para chegar, uma meta para cumprir e alguma coisa que ainda não fizemos.

Parte disso tem relação com o mundo em que vivemos. Estamos permanentemente conectados e a vida dos outros cabe na palma da mão. Não vemos apenas pessoas vivendo; vemos pessoas conquistando. A promoção, a casa nova, a viagem, o carro, o casamento, o filho entrando na faculdade. Sabemos que são recortes, mas ainda assim fazemos contas. Será que eu deveria estar mais longe? Talvez essa seja uma das perguntas mais silenciosas do nosso tempo.

Não existe uma idade correta para comprar uma casa, construir uma carreira, casar, ter filhos ou alcançar estabilidade. Mesmo assim, carregamos um calendário invisível. Olhamos para a própria idade e avaliamos onde imaginávamos que estaríamos. Quando a realidade não coincide com essa expectativa, aparece a sensação de atraso, mesmo quando a vida está acontecendo. E, às vezes, deixamos de perceber o que construímos porque estamos ocupados demais contabilizando aquilo que ainda não alcançamos.

Como pai, essa reflexão ganha outra dimensão. Nossos filhos observam a nossa pressa. Percebem quando estamos sempre correndo, quando o jantar precisa ser rápido ou quando o fim de semana já começa com uma agenda cheia. Também notam quando falamos de desempenho o tempo todo: nota, curso, esporte, inglês, escola, futuro. Tudo pode fazer parte de uma educação cuidadosa, mas existe diferença entre preparar uma criança para a vida e fazê-la acreditar que precisa estar sempre um passo à frente.

Quero que João Guilherme, João Rafael e Maria Vitória tenham sonhos enormes. Que estudem, trabalhem, descubram o que amam e tenham coragem para construir suas próprias histórias. Mas que não confundam uma vida boa com uma vida permanentemente acelerada. Não quero que aprendam que descansar é perder tempo, que brincar precisa ter finalidade ou que existe algo errado quando ainda não chegaram onde outra pessoa já chegou. A infância não deveria ser mais uma etapa de uma corrida que nós mesmos inventamos.

Existe uma armadilha nessa lógica de metas e conquistas: ela nos faz olhar constantemente para aquilo que falta. E, quando olhamos apenas para o que não temos, perdemos a capacidade de reconhecer o que já existe. Existe uma criança contando uma história enquanto preparamos o jantar, um filho crescendo diante dos nossos olhos, uma conversa no carro, um domingo sem grandes planos, uma brincadeira que não estava na agenda. Esses momentos não têm indicador de desempenho, mas também fazem parte daquilo que estamos construindo.

Desacelerar não significa abandonar ambições, desistir de crescer ou aceitar qualquer situação. Significa não transformar toda a existência em uma corrida. Continuar trabalhando, mas lembrar por que trabalhamos. Continuar sonhando, mas não permitir que o próximo sonho desvalorize aquilo que já conquistamos. E querer oferecer mais aos filhos sem fazê-los acreditar que aquilo que têm hoje nunca é suficiente. Talvez seja preciso reaprender a reconhecer a chegada antes de escolher o próximo destino.

A vida não precisa seguir o calendário que alguém estabeleceu para nós. Eu ainda tenho muitas coisas para conquistar, e meus filhos terão muitas etapas para viver. Mas, enquanto eles crescem, existe algo que não quero deixar para depois: estar presente na vida que já está acontecendo. Porque talvez a pergunta mais importante não seja quanto falta para chegarmos lá, mas quantas coisas importantes estamos deixando passar enquanto corremos para chegar.

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