Como proteger crianças no ambiente digital sem transformar a tecnologia em vigilância
Psicanalista explica por que ferramentas de supervisão devem ser combinadas com diálogo, orientação e construção de autonomia
O avanço do uso de celulares, redes sociais, jogos online e plataformas digitais por crianças e adolescentes tem ampliado também a preocupação de pais e responsáveis com segurança, privacidade e exposição a conteúdos inadequados. Nesse cenário, as ferramentas de controle parental ganharam espaço como aliadas das famílias, mas especialistas alertam que a tecnologia, sozinha, não substitui acompanhamento e diálogo.
Foto: Divulgação
A discussão ganhou ainda mais relevância no Brasil com a entrada em vigor do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), em março de 2026. A legislação estabelece uma série de medidas para ampliar a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital e prevê, entre outras iniciativas, ferramentas de supervisão parental acessíveis, gerenciamento de configurações de privacidade, restrição de compras, acompanhamento do tempo de uso e mecanismos de proteção nas interações online.
Na prática, o controle parental pode permitir que os responsáveis estabeleçam limites de tempo de tela, filtrem conteúdos de acordo com a faixa etária, restrinjam determinadas funcionalidades e acompanhem aspectos da utilização dos dispositivos. O recurso, no entanto, deve ser compreendido como parte de uma estratégia mais ampla de cuidado.
Para a psicanalista e escritora Suzana Belchior, o principal desafio é encontrar um equilíbrio entre proteção e desenvolvimento da autonomia: “O controle parental precisa ser entendido como uma ferramenta de cuidado, e não apenas como uma forma de vigiar a criança ou o adolescente. Os limites são importantes, mas precisam vir acompanhados de diálogo, orientação e participação da família. À medida que a criança cresce, é importante que ela também compreenda os motivos das regras e desenvolva recursos para fazer escolhas mais seguras no ambiente digital”.
A importância do diálogo familiar também se relaciona a uma questão mais ampla: a forma como experiências vividas durante a infância podem influenciar a maneira como crianças e adolescentes lidam com emoções, relações e situações de vulnerabilidade ao longo da vida.
Essa é uma das reflexões presentes no novo livro de Suzana Belchior, “O chão que me formou”, obra que cruza memórias, experiência clínica e autoficção para abordar as marcas deixadas por experiências da infância e a relação entre sofrimento emocional e manifestações no corpo. A autora parte também da própria experiência com o diagnóstico e a superação de um câncer de mama para construir uma reflexão sobre estresse crônico, silenciamento emocional e repressão dos afetos.
Mais do que uma obra de autoajuda, o livro propõe ao leitor uma reflexão sobre as próprias dores e sobre como experiências do passado podem permanecer presentes na vida adulta. A publicação une a investigação clínica à sensibilidade da narrativa autobiográfica para discutir comportamento, saúde mental e dores que nem sempre encontram espaço para ser verbalizadas.
A partir dessa perspectiva, a discussão sobre controle parental também ultrapassa a ideia de simplesmente estabelecer restrições ao uso da tecnologia. Para Suzana, acompanhar uma criança no ambiente digital significa criar espaço para que ela possa falar sobre o que vê, sente e vivencia, inclusive diante de situações que possam causar medo, constrangimento ou insegurança.
Mais do que limitar, educar
A chamada mediação parental envolve justamente esse acompanhamento mais amplo. Além das ferramentas tecnológicas, a participação dos responsáveis inclui conversar sobre os riscos do ambiente digital, estabelecer combinados e orientar crianças e adolescentes sobre privacidade, exposição e comportamento nas redes.
Entre os cuidados que podem fazer parte da rotina familiar estão estabelecer horários e momentos sem telas, conversar sobre privacidade e compartilhamento de informações, orientar sobre contatos com desconhecidos e explicar como agir diante de situações de medo, constrangimento, ameaça ou exposição.
A educação digital também envolve ensinar crianças e adolescentes a reconhecer riscos e compreender que nem todo conteúdo disponível na internet é adequado para sua idade. Nesse processo, o diálogo pode ajudar os responsáveis a entender como os filhos utilizam as plataformas e quais situações enfrentam no ambiente virtual.
Outro ponto de atenção é que as estratégias podem mudar de acordo com a idade. Para crianças menores, filtros de conteúdo e restrições mais rígidas podem ser necessários. Já com adolescentes, a construção conjunta de regras pode contribuir para o desenvolvimento de responsabilidade e autonomia.
O controle parental, portanto, deixa de ser apenas uma configuração tecnológica e passa a integrar uma estratégia mais ampla de cuidado. O objetivo não é impedir o contato com o ambiente digital, mas criar condições para que crianças e adolescentes possam utilizá-lo de maneira mais segura, consciente e, progressivamente, autônoma.
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